Início » Memórias sociais » O verão de tempos idos…
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O calor de verão em Alvalade continua igual: pesado, lento, quase como se a própria terra estivesse cansada de carregar o sol. No entanto, falta-lhe aquele som, o eco vibrante que outrora definia estes meses. Quase perdidos na bruma dos anos, estão os dias em que o verão aqui era um sobressalto permanente de vida e de uma juventude eterna que julgávamos nunca ter fim…
– As saudosas e frenéticas campanhas da ECA marcavam o compasso dos dias destas gentes, engrossadas por vários jovens da região que aqui vinham ganhar uns ‘cobres’ na fábrica.
– As noites do futebol de salão arrastavam a vila inteira para o ringue do clube unindo vozes, risos e aplausos numa comunhão feliz e genuína. No fim, entravam em cena os grandes bailes de conjunto para a entrega das taças, onde a música e o convívio uniam gerações.
– O mês de junho trazia sempre o perfume a manjerico e o fumo do carvão das festas dos santos populares. As marchas, carinhosamente ensaiadas pela Dona Maria Sobral, erguiam o orgulho da terra em cada coreografia criada ao luar.
– Na noite de S. João, cumpra-se a tradição de ir à Bica recolher a água santa, em cortejo animado.
– As Festas do Trabalhador, que duravam vários dias, eram outro ponto alto do verão alvaladense que o tempo também transformou em saudade.
– E, já no declínio da estação, as Festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição da Oliveira, padroeira e protectora destas gentes, coloriam a vila com flores de papel e abençoavam as noites quentes.
Dantes, a vila vivia o verão na rua… Os cafés estavam sempre cheios, as esplanadas transbordavam de conversas e o simples acto de “ir ver as montras” ao final do dia era pretexto para um encontro… Havia rostos, abraços, e promessas de namoro à esquina. Hoje, caminhar por essas mesmas ruas no verão é estender a mão a fantasmas feitos de luz e de som. A vila, outrora cheia de um frenesim caloroso, recolhe-se agora na sua quietude bucólica. Onde antes havia o clamor das festas, dos bailes de verão, do futebol de salão e o bulício dos cafés e das esplanadas, há agora a calmaria das noites compridas e das ruas despidas de gente. Desses verões animados, povoados de rostos conhecidos e de promessas cumpridas ou adiadas, restam-nos as suas memórias. São imagens suaves que o tempo, na sua passagem inexorável, vai diluindo aos poucos como fotografias antigas que ganham o tom sépia dos anos…
_Luís Pedro Ramos, julho de 2026
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