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Os Mira Pinheiro, entre Alvalade e Azinheira dos Barros

alvaladesadoFrancisco Mira Pinheiro, O Lavrador Velho

A 22 de Dezembro de 1817 nasce em Azinheira dos Barros Francisco Mira Pinheiro, sendo filho de Domingos Ferreira e Ana Pinheiro, ou Ana Pinheira como acabaria por ser chamada toda a sua vida.

O sobrenome Mira veio-lhe directo do avô materno, Francisco José de Mira, que havia casado com Maria Pinheira, descendente directa das 3 manas Sobreira que herdariam quantias respeitosas de terras em toda a região e foros sobre outras tantas.

Do lado do pai, as ligações ao Roxo eram fortes. A sua avó materna, Ana de S. José, não só era nascida no Roxo, mas também ali toda a sua família havia sido de lavradores, muito embora ainda esteja por apurar a propriedade das terras. Ainda assim, a posição social era de destaque na região.

Morando toda a sua vida na Rua Direita de Azinheira dos Barros (agora Rua Dr. Jacinto Nunes, e outrora Rua da Estalagem Velha), Francisco Mira Pinheiro nasceu em berço especial, tendo como Padrinho de Batismo um jovem de 17 anos, Miguel Gomes, que se tornaria Procurador do Morgado das Alcáçovas que mais não era que o proprietário da Herdade dos Barros, onde ainda hoje se localiza a sede da Freguesia. Aos 30 anos, Miguel Gomes era Regedor da Aldeia e o gestor de todo o património do Morgado, ocupando um lugar que era, por tradição, ocupado pela família mais rica de Alcácer do Sal ou pelo Presidente da Câmara de Alcácer do Sal.

Em 1843, a 27 de Junho, Francisco Mira Pinheiro casa, pela primeira vez, com Margarida Antónia, filha do seu Padrinho Miguel Gomes e Antónia Margarida. Antónia Margarida era da família dos Magro, da Abela, cujo sangue se ligaria à família do Ó de Santiago do Cacém, permitindo, mais tarde, a união de património pelo casamento. Para atestar a importância do casamento é o Padre Jacinto Ignácio Pinheiro uma das testemunhas. Porém, sem deixar descendência, Margarida Antónia morre cedo, e a 6 de Agosto de 1848 Francisco Mira Pinheiro casa pela segunda vez com Claudina Maria, da família Gomes de Ervidel. Também a segunda mulher morre cedo e também sem descendência sobreviva.

A 4 de Agosto de 1850, Francisco Mira Pinheiro casaria pela terceira e última vez com Mariana Antónia, irmã da sua primeira mulher, com quem ficaria casado 15 anos até à morte da mulher causada por parto, causa que aliás era comum por estes tempos. Deste casamento nasceriam 7 filhos, 4 dos quais morrendo antes dos 7 anos. Dos três que chegariam à idade adulta, era Francisco Mira Pinheiro o varão e herdeiro dos bens da família. Às suas irmãs, Antónia Mira e Maria Antónia Mira, ficavam reservados casamentos com lavradores da região, tendo a parte maior do património familiar sido herdada pela filha sobreviva de Maria Antónia Mira, pelo facto de Francisco Mira Pinheiro não ter tido filhos.

Interessante é o testamento por morte de Maria Antónia, datado de 1865, por ocasião de sua morte e que descreve os bens do casal por altura da morte. Ora vejamos então de que eram proprietários:

  1. Um Moinho de Vento encravado na Herdade do Corte Vazio, livre de foro, em Azinheira dos Barros. Avaliado em 550 mil réis, tendo vindo ao casal por compra;
  2. Um baldio junto ao Moinho de Vento do Corte Vazio, foreiro a Pedro José dos Santos, avaliado em 16 mil réis, veio ao casal por herança familiar;
  3. Uma cerca na Herdade do Corte Vazio, avaliada em 120 mil réis, veio ao casal por herança familiar;
  4. Uma cerca composta de terras de semeadura, vinha e oliveiras, nos subúrbios da Aldeia dos Barros, foreira ao Morgado das Alcáçovas, avaliado o domínio útil em 600 mil réis, veio ao casal por herança;
  5. Uma cerca composta de terras de semeadura, nos subúrbios da Aldeia dos Barros, foreira ao Morgado das Alcáçovas, avaliado o domínio útil em 50 mil réis, veio ao casal por herança;
  6. Um moinho de água, na ribeira do Bravo, avaliado em 200 mil réis, veio ao casal por herança;
  7. Umas casas térreas com quintal e lojas, na Rua Direita dos Barros, foreiras ao Morgado das Alcáçovas, avaliado o domínio útil em 400 mil réis, veio ao casal por herança;
  8. Uma casa na Rua da Igreja dos Barros, foreira ao Morgado das Alcáçovas, avaliado o domínio útil em 30 mil réis, veio ao casal por herança;
  9. Umas casas térreas na Rua da Igreja dos Barros, foreiras ao Morgado das Alcáçovas, avaliado o domínio útil em 60 mil réis, veio ao casal por herança;
  10. Umas casas térreas na Rua do Sobrado dos Barros, foreiras ao Morgado das Alcáçovas, avaliado o domínio útil em 60 mil réis;
  11. Montado de sobro da Herdade da Cruz de Ferro, nos subúrbios da Vila de Grândola, avaliado em 700 mil réis.

Para além das propriedades, pertencia ao casal um conjunto de bens que foram divididos pelos seus herdeiros numa avaliação total de 6,015 milhões de réis, que incluíam alguns empréstimos feitos a famílias de toda a região, incluindo moradores em Alvalade e na Abela.

Ao longo da sua vida Francisco Mira Pinheiro acabaria por ampliar significativamente a fortuna familiar, associando o oficio de Lavrador ao de Lojista de panos na Aldeia dos Barros, passando a constar nos corpos sociais das Irmandades locais, como Sacristão em 1836, como vogal na Junta da Paróquia ou como regular testemunha dos batismos e casamentos dos seareiros.

Até meados do seculo XIX a aristocracia local era sobretudo composta por elementos da nobreza e da família real a quem pertenciam grandes herdades (como Aniza, Mascarenhas, Assencada ou Herdade dos Barros) mas que viviam em Lisboa e cujas rendas das propriedades eram cobradas por procuradores locais. No entanto, sobretudo depois das revoluções liberais de 1820, o crescimento populacional de Azinheira dos Barros e a concentração de homens ricos, lavradores e comerciantes na aldeia, levou ao surgimento de uma nova elite, endinheirada, e que conciliava herança de terras com abertura de casas comerciais e dos quais Francisco Mira Pinheiro acabaria por ser o seu expoente máximo. A par dele surgiam homens ricos como Miguel Gomes, António Pereira Barradas, José Pereira Barradas, Agostinho Mira Pinheiro, Francisco Nunes Pinheiro, Francisco Maria Espada ou Francisco Nobre. E afirmavam-se homens e mulheres com ligações familiares à nobreza portuguesa como José Luís Lobo, Maria D’Ayres, Felicidade Antónia Lobo ou as 3 manas Sobreira.

Entre 1865 e 1904, Francisco Mira Pinheiro e o seu filho foram alargando o domínio de terras, comprando bens entre Azinheira dos Barros e Alvalade Sado deixados por organizações religiosas cuja sede e os religiosos se haviam refugiado nas cidades por altura das invasões napoleónicas. Em 40 anos a família faz crescer a sua fortuna de 6 milhões de réis para 33 milhões de réis pese embora com um forte envolvimento de todos os elementos da família. Entre os Barros e Alvalade existiam montes e aldeias de pequena dimensão, e a facilidade de uma estrada real directa que propiciava a relação. Por ser vila, nela se foram fixando várias famílias naturais dos Barros onde se casavam e faziam vida. Ao contrário de hoje, era com Alvalade que os Barros mantinham as mais intensas relações, sendo Grândola uma vila distante embora a sede do concelho. Já no século XVII se encontram registados muitos casamentos com naturais da Freguesia do Roxo e de Alvalade e a chegada da família Mira Pinheiro a Alvalade seria apenas mais um desses episódios normais de duas terras que eram próximas.

A 3 de Dezembro de 1904 morria Francisco Mira Pinheiro, na Rua Direita onde nasceu, com a idade de 87 anos, deixando o legado de um vasto património imobiliário e financeiro que permitiria a seu filho construir a quinta onde hoje se conhecem os Portões do Mira, em Alvalade.

Francisco Mira Pinheiro, O Lavrador novo

A 11 de Outubro de 1851 nascia em Azinheira dos Barros Francisco Mira Pinheiro Júnior, filho do terceiro casamento de Francisco Mira Pinheiro (O Lavrador Velho) com Mariana Antónia, unindo duas famílias endinheiradas e importantes na região: Gomes e Mira Pinheiro. Haviam de ser padrinhos no batismo o seu avô Miguel Gomes, tocando Nossa Senhora da Conceição (como era habitual então) e Pedro José (lavrador proprietário da Herdade dos Lavajos e que acabaria por se fixar na aldeia pouco depois, comprando casa e a Herdade do Corte Vazio).

Logo cedo se torna Lavrador nas Herdades do pai, tendo mudado residência para a Herdade do Lousal Novo, onde viveu até à altura em que o pai faleceu, em 1904. Com a morte do pai o património é dividido por Inventário Orfanológico, sendo os herdeiros o próprio Francisco Mira Pinheiro, dois sobrinhos filhos da falecida irmã Maria Antónia Mira (ambos menores e entre os quais Antónia Mira Costa – que acabaria por casar com Jose Ignácio do Ó) e uma irmã de nome Antónia Mira, que vivia em Montes Velhos, casada com Joaquim Ignácio de Figueiredo.

O seu pai e ele próprio foram adquirindo vastas propriedades entre Azinheira dos Barros e Alvalade, numa altura em que as ligações entre as duas terras eram estimuladas pela estrada directa e pela inexistência de outras aldeias entre si. Relembre-se que o Lousal e Ermidas Sado são fundadas já depois da chegada do Caminho de Ferro. Com esta ligação forte, com as grandes propriedades a não conhecerem limites de território, Herdades como  o Espinhaço do Cão, Herdade dos Barros, Lousal Novo ou Lousal Velho, todas eram parte em Grândola, parte em Alvalade. Os proprietários, residentes na Aldeia dos Barros, pagavam as suas contribuições nas duas vilas, e amiúde existiam casamentos entre naturais das duas terras.

E foi desta forma que, entre 1865 e 1904, a família Mira Pinheiro foi adquirindo foros e propriedade plena na Freguesia e na Vila de Alvalade.  Para melhor entendermos o património familiar que o velho Francisco Mira Pinheiro deixa em testamento em 1904, aqui fica uma lista resumida:

Na Freguesia dos Barros:

  1. Uma morada de casas térreas na Rua Direita da Aldeia dos Barros, que paga 600 réis  e 14,45 litros de trigo de foro a António Pereira Barradas. Avaliada em 900 mil réis;
  2. Uma morada de casas térreas na Rua Direita da Aldeia dos Barros, que paga 25 reis de foro a António Pereira Barradas. Avaliada em 25 mil réis;
  3. Uma morada de casas térreas na Rua da Igreja da Aldeia dos Barros, foreiras em 200 réis a António Pereira Barradas. Avaliada em 40 mil réis;
  4. Uma morada de casas térreas na Rua da Igreja da Aldeia dos Barros, foreiras em 230 réis a António Pereira Barradas. Avaliada em 45 mil réis;
  5. Uma morada de casas térreas no Largo da Eira da Aldeia dos Barros, composta por divisos compartimentos, cavalariça, palheiro e quintal ou cerca. Alodial, ou seja, completamente livre de encargos, e avaliada em 100 mil réis;
  6. Uma cerca no Corte Vazio, foreira a Eduardo Thomás David em 29,080 litros de trigo. Avaliada em 36 mil réis;
  7. Uma cerca denominada “Cascalho” no sitio do Corte Vazio, foreira a Eduardo Thomás David em 65,430 litros de trigo. Avaliada em 18 mil réis;
  8. Herdade da Bouça, com casas para habitação, arramada, palheiro, cercas, terras de semeadura, olival e alguns pinheiros, livre de foro ou pensão. Avaliada em 3 milhões e 106 mil réis;
  9. Herdade denominada “Louzal Novo”, composta de casas de habitação, arramadas, palheiros, cercas, árvores de fruto, montado de sobro e azinho. Alodial, e avaliada em 10 milhões e 340 mil réis;
  10. Courela denominada “Espinhaço do Cão”, livre de foro ou pensão. Avaliada em 260 mil réis;
  11. Courella denominada “Courellas”, composta de terras de semeadura e incultos, montado d’azinho e algumas outras árvores. Recebe de foro de Olímpio Henriques 290,800 litros de trigo
  12. Uma cerca denominada “Das Pedras” situada nos subúrbios da Aldeia dos Barros, pagando de foro 430 réis e 29,080 litros de trigo a António Pereira Barradas. Avaliada em 150 mil réis;
  13. Uma cerca com olival, situada nos subúrbios da Aldeia dos Barros, que paga de foro 101,730 litros de trigo a António Pereira Barradas. Avaliada em 600 mil réis;

Na Freguesia de Alvalade:

  1. Herdade denominada “Varzia Grande”, composta de casas de habitação, terras de semeadura e incultos, montado de sobro, azinho e olival. Paga de foro 7200 réis ao Mosteiro de Viana do Alentejo. Limita de norte e sul com terras da “Alentinha”, nascente com ribeira grande e poente com terras do Pomarinho. Avaliada em 3 milhões e 200 mil réis;
  2. Herdade denominada “Alentinha”, composta de montado de sobro e terras de semeadura e incultos. Confronta de norte com Herdade da Sadurninha, sul com Vargem Grande, nascente com Herdade d’Algeda e poente com Herdade do Val do Carmo. É foreira em 199,082 litros de trigo à Casa Pia de Beja. E foi comprada por Francisco Mira Pinheiro em 1876 a Francisco José Verde da Aldeia dos Ruins. Avaliada em 1 milhão e 800 mil réis;
  3. Courella denominada “Moutinho” composta de terras de semeadura, charneca e algumas sobreiras e azinheiras. Alodial. Limita de norte com Algeda, sul com Monte Novo das Almas, nascente com Porto de Mouro e poente com ribeira grande. Avaliada em 250 mil réis;
  4. Herdade denominada “Monte Novo das Almas” composta de casas para habitação, terras de semeadura e incutos e montado de azinho e sobro. É livre de foro e pensão. Limita de norte com Martinho e Ribeira Grande, sul com Horta e Olivais das Ermidas, nascente com Mudarros e poente com Ribeira Grande. Avaliada em 3 milhões e 800 mil réis;
  5. Moinho denominado “Gamitta”, composto de dois aferidos, casa de habitação e cavalariça. Confronta de norte, sul e poente com Herdade da Sadurninha e nascente com a ribeira grande. É livre de foro ou pensão. Avaliado em 250 mil réis;
  6. Courella denominada “Morgado de Napoles”, na ribeira de S. Romão. Confronta de norte e nascente com ribeira de S. Romão, sul com a vinha velha e poente com vinha de Francisco Felício. Alodial. Avaliado em 150 mil réis;
  7. Olival denominado “Redorido” nos subúrbios de Alvalade. Confina de norte com olival de Bernardo António, sul com estrada do cemitério, nascente com a estrada de S. Sebastião e poente com olival de Joaquim Miguel. É livre de foro ou pensão. Avaliado em 200 mil réis;
  8. Olival denominado “Trez Carreiras” nos subúrbios de Alvalade. Confronta de norte com a estrada d’areia, sul com olival de Maria Antónia, nascente com olival de Grandaços e poente com olival de José de Valle Delores. Alodial. Avaliado em 180 mil réis;
  9. Olival denominado “Covas D’Areia” nos subúrbios de Alvalade. Limita de norte com estrada d’areia, sul com olival de Maria Antónia, nascente com olival de José Francisco D’Ayres e poente com olival dos Grandaços. É livre de foro ou pensão. Avaliado em 150 mil réis;
  10. Metade de uma courella denominada “Vinha Nova” sita na Vargem da Ribeira de S. Romão. Compõe-se de terras de semeadura com algumas oliveiras. Confronta de norte com terras da herdade d’Ameira de José Francisco d’Ayres, sul com terras de António Francisco Botelho, nascente com a courela de José Nunes Parreira e poente com a estrada dos Coitos. Paga de foro 214,395 litros de trigo à Casa Pia de Beja. Avaliada em 150 mil réis;
  11. Metade de uma courella denominada “Vinha Velha” situada na Vargem da Ribeira de S. Romão, composta de terras de semeadura. Confronta do norte com terras de Manoel José da Silva, sul com terras de José Francisco d’Ayres, do nascente com terras de Porto Beja e poente com a vinha de Joaquim Pedro Espada. Alodial. Avaliada em 300 mil réis;
  12. Metade d’um lagar d’azeite no sitio da Fonte Branca. Confronta de norte com estrada que vai para a Fonte, sul com olival do Padre Bernardo António de Souza, nascente e poente com terras do Concelho. Paga de foro 300 réis à Câmara Municipal do concelho de S. Thiago de Cacem. Avaliado em 300 mil réis;
  13. Metade d’um olival denominado “O Grande” no sitio do Pombal, que contem algumas árvores de sobro. Limita pelo norte com terras d’Arramada d’Amoreira, sul com estrada do Pombal, nascente com a Lapa e terras das vinhas novas e pelo poente com terras do Dr. António Parreira D’Aboim Louzeiro de Lacerda. É foreiro em 26,500 réis a Francisco de Lemos Mascarenhas e Souza, de Lisboa. Avaliado em 650 mil réis;
  14.  Metade d’olival denominado a “Fonte” no sitio da Fonte Branca (atual Fonte da Bica). Confronta de norte com a estrada real, sul com as covas d’areia, nascente com terras do concelho e poente com a estrada pública. É livre de foro e pensão. Avaliado em 125 mil réis;
  15.  Olival denominado “Pego Verde”. Confronta do norte e nascente com terras de José Francisco D’Ayres, sul com azinhaga pública e poente com olival de Maria Anna Branco, sendo propriedade alodial. Avaliado em 120 mil réis;
  16. Metade d’uma morada de casas térreas com 14 compartimentos, dois celeiros, casas de tulhas, depósito de azeite, adega, casa de destilação, cavalariça, palheiro e quintal, situadas na rua de Lisboa da vila de Alvalade. Confina pelo norte com a estrada da Fonte Branca, pelo sul com a Rua de Lisboa, nascente com casas de Domingos Sapinha e poente com casas de Manoel Joaquim. Alodial. Avaliadas em 350 mil réis;

Assim, em 1904 dividia-se a fortuna familiar de Francisco Mira Pinheiro, que estava avaliada em quase 34 milhões de reis, ou 34 contos de réis, bem acima dos 6,5 milhões de réis registados em 1865 aquando da viuvez de Francisco de Mira Pinheiro.

Ou seja, entre 1865 e 1904, o viúvo Francisco Mira Pinheiro dá inicio à construção de um pequeno império imobiliário em Alvalade Sado, ao mesmo tempo que ali instala o seu irmão, Joaquim Mira, para cuidar das propriedades. Aliás, em 1866 José Mira, filho de Joaquim Mira, já casou em Alvalade, tendo sido registados vários casamentos da família Mira em Alvalade, pese embora quase todos os baptismos fossem feitos na Igreja de Azinheira dos Barros.

Nas partilhas dos bens, as herdades e casas mais próximas de Azinheira dos Barros acabariam por ficar para os netos António Francisco da Costa e Antónia Mira Costa (ele acabaria por falecer novo, deixando o património à irmã). As propriedades a meio caminho, como a Vargem Grande, Moutinho ou Alentinha ficariam para a filha Antónia Mira, casada com Joaquim Ignácio Figueiredo e moradores em Montes Velhos, e tudo o resto para Francisco Mira Pinheiro Júnior. Por esta altura, estabelecido no Monte do Louzal Novo desde 1880, Francisco Mira Pinheiro já tinha percebido que seriam os seus sobrinhos os herdeiros da fortuna que herdara parte da mãe em 1865 e agora a restante da parte do pai.

Francisco Mira Pinheiro Júnior era casado com Maria José do Ò, natural de Santiago do Cacém, que vivia no Monte Branco da Serra, Freguesia de Alvalade, com sua mãe, Engrácia Maria, desde 1878, altura em que conheceu o seu futuro marido. Foi também por esta altura que a família do Ò chega a Azinheira dos Barros, com primas e irmãs de Maria José do Ò a fixarem ali residência, pese embora só em 1923 tenha nascido o primeiro Mira do Ò (Armando Mira do Ó), pelo casamento dos primos Antónia Mira Costa e José Inácio do Ò.

Ao longo da vida, Francisco Mira Pinheiro ampliou fortemente a fortuna familiar, mandando plantar olivais e montado de sobro, cultivando as suas terras, produzindo azeite e bagaço nos lagares e adegas que foi comprando ou mandando construir, reforçando o trabalho dos moinhos de água, como o Moinho da Gamita e o Moinho do Bravo, e dos moinhos de vento, como o Moinho do Corte Vazio (que havia comprado a Francisco Sobral e que mais tarde vendeu a Pedro José).  Ao mesmo tempo foi emprestando dinheiro a seareiros e lavradores de toda a região que lhe pagariam com juros ou com a entrega de propriedades quando não conseguiam satisfazer as suas dívidas.

Por outro lado, o seu envolvimento nas questões locais levou-o, em 1913,  a construir uma casa para acolher uma nova Escola Primária em Azinheira dos Barros e bem assim a residência da Professora, a ceder uma casa onde vivia o médico cirurgião e a empreender uma parte da sua vida no apoio aos pobres e desfavorecidos, grande parte dos quais seus trabalhadores.

Quando morre, já na década de 1930, vê as terras do Lousal que tinha vendido a conhecerem a abertura de uma Mina, mantendo-se na família as fronteiras com as terras da Mina até à atualidade.

Não se sabe ao certo quem terá mandado construir os Portões do Mira, em Alvalade, porque quer o Velho, quer o Novo, tiveram ligações a Alvalade e as compras de terras, casas e afins foram ordenadas por ambos. No entanto, foi ao Francisco Mira Pinheiro Júnior que coube a tarefa de gerir o património familiar dos lados de Alvalade logo a partir de 1880, razão pela qual se perspectiva ter sido este o mandante dos Portões. Quer um, quer outro, marcaram gerações de homens e mulheres de Azinheira dos Barros e de Alvalade, ficando esta pequena nota biográfica para registo futuro e longe de estar concluída…

_Pedro Ruas

Azinheira de Barros, 27 de Março de 2014.

…………………………………………………………………………………………………………….

Agradecimento: ao Dr. Pedro Ruas, actual presidente da junta de freguesia de Azinheira dos Barros, por este texto/estudo sobre a família Mira Pinheiro. O “Quintal do Mira” e os “Portões do Mira” foram espaços e topónimos que atravessaram várias gerações de alvaladenses e que ainda hoje subsistem na memória local. Este estudo, permite-nos conhecer a sua origem mas também a família Mira Pinheiro, o património que deteve nesta freguesia e as ligações fortes entre Alvalade e a Azinheira dos Barros.

_LPR

 

9 Respostas a Os Mira Pinheiro, entre Alvalade e Azinheira dos Barros

  1. José Raposo Nobre Responder

    29 de Março de 2014 em 12:34

    Belo trabalho de pesquisa e estudo sobre esta família, parabéns também ao Dr. Pedro Ruas que não conheço, mas que é filho do amigo Ruas, comerciante em Azinheira dos Barros e Presidente da Casa do Povo, cargo que não sei se ainda exerce, mas que conduziu a vários encontros nas nossas freguesias e em Grândola.
    JRN

  2. Maria Dores Carvalho Amado Responder

    29 de Março de 2014 em 12:43

    Como eu gostei de ler este texto, e assim, por este meio, quero agradecer ao Dr. Pedro Ruas a sua disponibilidade por nos ter facultado todo este explanar de datas e acontecimentos….já uma vez “falei” aqui no quintal do Mira…….Os que aparecem designados depois de 1923, data do nascimento do grande amigo do meu pai, marido da minha madrinha de baptismo, na igreja de Azinheira dos Barros e meu padrinho de casamento (com a esposa) na Igreja de São João de Brito em Lisboa.
    Era a mais próxima da casa deles em Lisboa e foi de lá que saí no meu imaculado vestido de noiva que eu própria adquiri na véspera e foi a meu pedido lá entregue com os demais adereços….as luvas eram pequenos e o pad. Armando levou o serão a tentar alargá-las com o cabo de uma escova…..como é bom recordar estas e outras coisas….dois dias antes do meu casamento, o António Armando Reis Mira do Ó tinha partido para a Guiné-Bissau. Estávamos em plena “exportação humana” para além mar….tbm eu parti com o meu marido para a mesma guerra, umas milhas mais longínquas, “tanto mar, tanto mar” até L.ço Marques. Não “houve festa, pá”….ainda não tinha chegado o cheirinho de alecrim…, mas com todo este “testamento” ainda não disse quem foi o meu padrinho de baptismo tbm mencionado no texto elucidativo do Dr. Ruas…. Foi o sr Manuel Pereira Barradas, padrinho de Maria da Luz Reis Mira do Ó. Foi um acordo. Como os padrinhos da Luzita eram o padrinho Manuel Pereira e a mad. Maria da Luz, eu fiquei com os quatro p padrinhos. Os da menina e os pais. Nunca lhes faltou a eles essa grande riqueza e a mim grande afeição e amor por eles. Bem haja quem recorde….

  3. Matilde Oliveira Responder

    29 de Março de 2014 em 12:55

    Muito bom texto. Parabéns ao autor.

  4. Maria Dores Carvalho Amado Responder

    29 de Março de 2014 em 13:03

    …..mas e o quintal do Mira?
    Pois esse grande “condomínio privado” do séc. passado, era propriedade do sr Mira e depois do padrinho Armando Mira do Ó.
    Então ele costumava vir receber as rendas dessas casinhas a Alvalade. Qnd os meus pais vieram morar p a Rua Duque da Terceira n. 26 em Alvalade o padrinho pediu para ser o meu pai a recebê-las. Até alguns inquilinos iam levar o dinheiro lá a n casa. D’aí eu ter tido conhecimento do quintal do sr Mira assim q fui p Alvalade, tlvz em 1959 ou 60. Continuámos sempre a encontrar-nos no monte Branco p fazer a cresta das colmeias ou p ir à caça na coutada, pois luras com coelhos eram incontáveis…
    Qnt ao famoso e fabuloso médico, dr. António Pires Cabral e a sua esposa nossa professora, viveram em Azinheira muitos, muitos anos dando ao povo o seu carinho.
    Lembro-me bem do consultório com os vidros das janela pintados de branco, para que quem passasse na rua nâo olhasse p o interior…nós brincávamos por ali….da escola, à casa da avó Antónia Mira, atravessar a rua para a madrinha Antoninha onde já estavam prontas umas famosas filhoses….etc, etc.

  5. Maria Dores Carvalho Amado Responder

    29 de Março de 2014 em 13:19

    E assim ficou mais uma ligação….eu, natural de Alvalade, tenho, ou tive, pq pela idade avançada já faleceram, os meus padrinhos de Azinheira de Barros e fui baptizada naquela igreja e frequentei a escola das raparigas onde no quintal havia uma ameixeira (ameixoeira) com ameixas vermelhas numas pernadas e amarelas numa outra. Era uma escola com quatro filas de carteiras….cada fila era uma classe.
    A D. Emília nunca deixou q eu ficasse na primeira fila, fui logo p a segunda pois eu já sabia ler.
    O meu avô Alfredo Carvalho ofereceu-me o livro da primeira qnd eu fiz quatro anos… E o meu pai, nos Barros dava aulas ao curso nocturno.
    Eu sempre ia ouvindo e vendo escrever e a m mãe tbm me ensinava e a outras crianças…. Tenho q terminar pois não pretendo encher mais linhas neste tão útil.
    Alvalade.Info…..abraço grande a M.L.Ramos e Pedro Ruas.

  6. Céu Bougron Responder

    29 de Março de 2014 em 14:46

    Parabéns. Muito interessante.
    Até breve.

  7. Artur Vendas Pereira Responder

    29 de Março de 2014 em 17:17

    Conheci pessoalmente a Sra. D. Antónia Mira do Ó, o seu marido e o seu irmão Francisco Mira, penso que era este o nome do senhor. Conheci-o já com alguma idade. Ele passava grande parte do tempo sentado num banco feito de tiras de madeira, articulado, com encostos para os braços, na loja do sr. António Olímpio Henriques. De enaltecer o excelente trabalho do nosso actual Presidente da Junta de Freguesia, Sr. Dr. Pedro Ruas.

  8. Idálio Nunes Responder

    31 de Março de 2014 em 15:16

    Muitos e sinceros parabéns Sr. Presidente e amigo! Investigação séria e bom texto de apresentação.
    Abraço.

  9. Miguel Mira do Ó Responder

    2 de Julho de 2014 em 11:48

    Obrigado Pedro, pelo teu texto e pela promessa de que “a nota biográfica está longe de estar concluída”…
    Agradeço igualmente a todos os outros intervenientes que deram o seu contributo neste regresso às origens da minha Família.
    Estou e estarei sempre, até ao fim dos dias, grato aos meus avós, Armando e Antónia da Luz Mira do Ó pelo amor que me ensinaram a ter pela Família, pelas suas origens e por Azinheira dos Barros. Dizem os Ingleses, numa expressão muito feliz, que “a nossa casa é onde está o nosso coração”. E o meu aí está, em Azinheira de Barros, para onde continuo a fugir sempre que as responsabilidades profissionais em Lisboa mo permitem.
    Há pouco tempo descerrou-se uma placa com o nome do meu avô. Sentida e devida homenagem. E foi-o ainda mais porque foram as minhas filhas e suas bisnetas que orgulhosamente retiraram a bandeira da vila de Grândola que a envolvia.
    Nelas cresce também já o Amor pela “terra dos Barros”, assim como crescerá no meu recém-nascido filho, o Francisco, que não sendo Mira Pinheiro, é seguramente um Mira do Ó!
    Pedro, um forte abraço.

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