As visitações das Ordens Militares e os inventários paroquiais regulares constituem fontes documentais de inestimável valor para a História local, permitindo perscrutar os acervos de arte sacra que, ao longo dos séculos, foram reunidos na Igreja Matriz, capelas e ermidas de Alvalade.
A primeira grande referência cronológica remonta a novembro de 1510 — escassos dois meses após a outorga do Foral Novo por D. Manuel I. Na visitação minuciosa dirigida pelo Mestre da Ordem de Santiago, D. Jorge de Lencastre, o cabedal de alfaias de prata da Igreja Matriz foi assim inventariado:
Uma cruz de prata branca, guarnecida com um crucifixo dourado e capitéis que, com o respetivo pé, pesava quatro marcos e duas onças (cerca de 965,46 gramas);
Um cálice e respetiva patena de prata, parcialmente dourados, com o peso de um marco e sete onças e meia (cerca de 444,69 gramas);
Um cálice e patena de prata dourada, apresentando o pé quebrado, com o peso de um marco e seis onças (cerca de 401,66 gramas);
Um cálice de prata branca, com o peso de dois marcos menos meia oitava (cerca de 444,69 gramas);
Uma custódia de prata branca, enriquecida com quatro coruchéus, correntes de prata e fechos — peça notável sobre a qual o registo atesta: «(…) a quall deu elrey Dom Manuel, meu senhor, per a prata que foi tomada à igreja» —, pesando três marcos (cerca de 688,56 gramas).
O novo estatuto institucional da igreja matriz, consolidado pelo foral manuelino, a fiscalização apertada da Ordem de Santiago da Espada e o labor financeiro das várias irmandades anexas permitiram multiplicar e enriquecer substancialmente o património litúrgico ao longo dos três séculos seguintes.
Essa opulência de metais nobres transparece de forma impressionante na relação de meados do século XIX redigida pelo padre Bernardo António de Sousa, clérigo que marcou profundamente a vida paroquial alvaladense durante boa parte da centúria oitocentista:
Uma cruz de prata grande lavrada
Uma custódia perfumada a ouro
Uma caldeirinha e hissope de prata
Um turíbulo e naveta de prata
Uma naveta e colher de prata
Um par de galhetas e prato de prata
Um vaso de depósito de prata perfumado a ouro
Três cálices lisos de prata com patenas
Dois cálices lavrados e perfumados, sendo um de uso
Dois cálices de prata quebrados, dourados, e duas patenas
Um pé de cálice de prata dourada
Um prato de prata, pequeno
Seis patenas de prata perfumadas a ouro, sendo uma de uso
Quatro resplendores de prata
Cinco coroas de prata
Dois vasos dos santos óleos de prata
Uma pena de prata
Três colheres de cálice de prata, sendo uma pequena e outra em serviço
Uma coroa de prata, pequena
Uma âmbula de prata
Duas chaves de prata de sacrário, sendo uma de uso
Vinte e duas contas de ouro com pedras verdes em forma de cruz
Ao analisarmos esta relação das alfaias de prata e ouro da Igreja Matriz de Alvalade, é inevitável questionar a razão pela qual muitos destes exemplares não chegaram aos nossos dias. A resposta reside nas múltiplas vicissitudes e imponderáveis que acompanham a história viva de qualquer paróquia, lembrando-nos de que os tesouros de um templo nunca foram acervos intocáveis ou imutáveis.
Por um lado, a própria passagem do tempo, o desgaste do uso ritual continuado e a falta de meios para restauro ditaram a degradação e a perda irreversível de inúmeras peças. Por outro lado, em momentos de grande penúria, coube frequentemente às comissões fabriqueiras a difícil decisão de alienar ou mandar fundir velhas pratas para angariar fundos imediatos para custear obras urgentes no telhado ou na estrutura física do edifício, entre outras. Somam-se a estes fatores a vontade periódica de modernização estética do culto — que levava à substituição ou descarte de objetos antigos —, para além dos inevitáveis extravios, furtos ou confiscos decorrentes de períodos de maior perturbação política e social.
Recordar estes inventários é, por isso, um ato de estrita justiça e salvaguarda da memória, permitindo-nos aferir com rigor a riqueza do património que Alvalade possuiu e compreender os contornos das perdas que o tempo consumou.
_Luís Pedro Ramos
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