Quando a fome espreitava e a alma resistia…

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Na Alvalade das idas décadas de 30, 40, 50 e 60, o relógio do trabalhador era o próprio sol, dividindo a rudeza dos dias em três momentos de pausa: o almoço, o jantar e a ceia. Ao romper da aurora, pelas oito ou nove badaladas da manhã, o corpo pedia o sustento para enfrentar as várzeas e os campos. Era o tempo do almoço, feito de uma humilde sopa de toucinho ou de alho, onde o conduto era um luxo raro. O jantar chegava ao meio-dia ou à uma da tarde. Partilhava-se a sopa de grão ou de feijão, que a sorte do dia às vezes enriquecia com um punhado de massa ou de arroz.
Quando a noite finalmente se estendia sobre o campo, vinha a ceia pelas oito ou nove horas. Trazia o mesmo sabor repetido do jantar ou, no despojamento da mesa, apenas o pão fatiado com o que a despensa oferecesse: uma sardinha assada, algumas azeitonas guardadas ou um pedaço de queijo da terra. O pão, esse companheiro de todas as horas, era o verdadeiro esteio da vida, consumido com uma abundância que nascia da própria falta de tudo o resto. A comida, ora ungida com o fio de azeite, ora enriquecida com um pedaço de toucinho, guardava os seus raros milagres para os dias de festa. Nesses momentos sagrados, a tradição trazia o perfume do cozido à portuguesa, com a couve e o sacrifício de um porco ou carneiro. Na doença, a fragilidade humana procurava o reconforto, quase místico, de uma canja de galinha…
Olhando para trás, sente-se a sombra perpétua da carência. Aquela alimentação carregava graves deficiências, na pobreza da sua substância e na escassez do prato. E quando a terra negava o trabalho e o desemprego trazia o inverno à alma, comia-se ainda pior. Alvalade esvaziava-se no rosto da sua gente, num desespero mudo gravado no emagrecimento visível de uma população que a fome, discretamente, consumia…
Obs. a fotografia é meramente ilustrativa e não tem qualquer relação directa com o texto.
_Luís Pedro Ramos

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