O Largo do Vasco…

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4 Comentários

Já vai distante o tempo em que lhe chamavam “o largo do café do Chico” — embora os mais velhos ainda o recordem como “o largo do Vasco”, a designação mais antiga que permanece viva no imaginário da população. O nome foi-lhe “emprestado” por Vasco José da Silva, comerciante (de mercearia, talho, café…) e uma das figuras mais carismáticas do século XX em Alvalade. Morava no edifício mais antigo do largo que, apesar das marcas do tempo, ainda evoca a intensa vida e o bulício de outrora.

Nos idos anos 30 do século passado, a par da sua atividade comercial, Vasco Silva exercia as funções de tesoureiro no executivo da Junta de Freguesia. Lamentava-se, na época, dos escassos recursos da autarquia e do fraco auxílio vindo dos Paços do Concelho de Santiago do Cacém, o qual nem sempre chegava com regularidade. Por esse motivo, diversos projetos para Alvalade aguardavam cabimento orçamental. Ajardinar e arborizar o Largo da República, bem como construir ali um chafariz público alimentado pela água vinda do Pombal, eram algumas das grandes obras que ambicionava para enobrecer a vila — contudo, faltavam as verbas necessárias, como o próprio declarava em entrevista ao jornal «Ala Esquerda», a 30 de março de 1933. Mais tarde, em 1943, tornar-se-ia o primeiro presidente da direção da Casa do Povo de Alvalade, fundada nesse mesmo ano.

Beneficiando da proximidade com a Ladeira do Posto (atual Rua 23 de Agosto de 1914), uma das principais vias de entrada na vila, o largo afirmou-se como um dos espaços mais animados de Alvalade durante boa parte do século XX, impulsionado pelos estabelecimentos comerciais que ali se fixaram. Pelo afamado restaurante do Sr. Manuel Pereira e da D.ª Júlia Ramusga, reconhecido pela boa mesa, passaram alguns dos maiores nomes do espetáculo nacional. Vinham atuar a Alvalade pela mão de José Raposo Nobre (igualmente morador no largo), um dos mais influentes empresários culturais da região e grande dinamizador do Cinema Alvalade.

Em certas épocas, o “largo do Vasco” chegou a rivalizar em afluência com a icónica Praça D. Manuel I — o coração público da vila, também conhecido, a partir da segunda metade do século XX, como “largo da Casa do Povo”. Ambas as praças continuam a ser pilares fundamentais da memória coletiva do centro histórico, lugares onde se moldou a própria identidade de Alvalade.

_Luís Pedro Ramos

4 Respostas a O Largo do Vasco…

  1. Maria Dores Martins C Amado   2 de Dezembro de 2017 at 16:22

    Tudo o que acabei de ler são as boas recordações do tempo do “Largo do café do Chico.” Recordo-me que o telefone dele era o número 8. Era o café do Chico e os outros. Os três funcionavam e davam vida às lojas no mesmo largo. Alvalade viveu, nesse tempo, dias de alegria e conforto económico… Foi também o tempo da “hidráulica…

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  2. Zé do Monte   16 de Abril de 2018 at 23:30

    Largo do Vasco. Se me lembro!…
    Na esquina com a Ladeira do Posto existiu o café “Orquidia” de que fora proprietário o Sr.Arménio que explorava, também, uma loja de fazendas na Rua Duque de Terceira (no prédio de D.Augusta).
    No lado oposto residiu o Sr.Baião, farmacêutico, pessoa de requintado tratamento e que sempre mereceu justificada estima e consideração de toda a gente. Na outra esquina, com a rua Duque de Terceira, existia a oficina de albardeiro de que era proprietário o Sr.Alfredo(?) Maximino, fazedor de albardas e de outros atavios destinados às cavalgaduras da região.
    Era no Largo do Vasco que se faziam as “praças” para a contratação dos ceifeiros que ali, sentados nos lancis, esperavam a chegada dos lavradores ou dos seus mandatários, os feitores, que os ajustavam para uns dias de ceifa, consertavam o preço da jorna e de outras condições contratuais, entre elas: se era ou não “a de comer”e “de albergaria”. O contratador déspota, abatia na jorna, se se desse o caso optativo de acertarem as condições de trabalho, “a de comer” e “de albergaria”.
    Lembro-me que os jornaleiros era definidos, jocosamente, por “ratinhos”, os oriundos das Beiras e por “algarvios” os que provinham do Algarve. Os ceifeiros alentejanos, os locais, eram os “homens”, muito embora, quanto ao trabalho braçal, não fossem diferenciados.
    Era a triste realidade do tempo negro da nossa história, tempo da miséria, do tempo do achincalhamento do trabalhador rural e do desprezo, penosamente e despudoradamente humilhado.

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  3. admin   17 de Abril de 2018 at 9:31

    Excelente apontamento sobre o ‘Largo do Vasco’, Sr. Zé! Vou coligir estas memórias, que conhecia apenas parcialmente. Muito obrigado. LPR

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  4. Luis Martins da Silva   28 de Julho de 2020 at 18:52

    Só informar que o senhor Vasco José da Silva foi o primeiro Presidente da Direcção da Casa do Povo de Alvalade.

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